Nas horas vorazes, nos sustos cotidianos, comida é sangue, sal, letra, organismo, pulso-insistente, moeda de troca.
Toda saliva espera o prato ausente. Memórias e sonhos e memórias fazem o tempo despertar o afeto do grão de centeio, atemóia e gengibre.
Uma vez na Algarvia, um homem africanamente português me ensinou a mastigar vieiras. Mastigar vieiras como se não fosse preciso senti-las, mastigá-las apenas para revivê-las, no iodo e no sexo.
Em toda língua alimento se extingue.
Muito convicta de que moluscos são as pequenas mortes do mar, mastigo mulheres sudanesas, portuguesas e angolanas e seus respectivos pactos com a vergonha.
Sorvo o que brota, voa, nada, rasteja, caminha, dá em rama, se abre em concha, em tripas, em nervos, em pó, de modo que revivo tudo o que come a boca do homem. Apavoramento e sacrifício na glote da Terra.
Coberta de apetites, mortes curtas, alguns pudores, mastigo a mim mesma.
Serenamente convicta de que liberdades são antigas fomes.
(Originalmente publicado em ameixaamarela.com.br)